O ponto alto do empirismo se
encontra nos pensamentos de Davi Hume, ele, diferentemente de Locke e Berkeley,
não recorreu a metafisica como amparo de seu pensamento, o ceticismo de Hume
foi o responsável por despertar Kant de seu sono dogmático, segundo Hume todo
conteúdo de nossa mente pode ser reduzido às informações sensoriais, ou seja,
as percepções, para o filósofo, as percepções assumem duas formas, as
impressões e as ideias, as informações originais são as impressões e as
lembranças que tenho dessas impressões são as ideias, as impressões são mais
vivas e intensas, enquanto as ideias são mais fracas e menos vivas.
Quando eu corto alguma parte
de meu corpo a vivacidade e a intensidade da dor é maior do que quando
simplesmente me lembro do corte, para Hume não existe ideias sem impressão, em
seu ponto de origem todas as ideias são, na verdade, simples impressões, Hume
vai dizer que existe ideias simples e complexas, as simples são as lembranças
que tenho das impressões, as complexas são as que eu crio através da reflexão e
da imaginação sobre as sensações e as ideias simples, eu posso imaginar uma
montanha de ouro, que é uma ideia complexa, mas se formos examinar a fundo,
veremos que simplesmente juntei duas ideias simples, a de montanha e a de ouro,
uma pessoa que nunca viu o ouro, jamais irá ter uma ideia do que seja uma montanha
de ouro, a ideia que tenho de anjos, segundo Hume, não seria nada menos que
ideias simples de homem e asas, a minha mente combina e colo essas ideias
simples criando ideias complexas, tudo se resume em impressões, ele quer
examinar a origem de cada ideia, se para Descartes a noção clara que tinha de
Deus era a prova da sua existência, Hume responderia que se Deus é uma criatura
infinitamente inteligente, sábia e boa, teríamos simplesmente ideias complexas
resultantes de impressões, se nunca tivéssemos experimentado a inteligência a
sabedoria e a bondade, não poderíamos ter tal conceito de Deus, sendo assim,
nada podemos afirmar sobre aquilo que não pode ser reduzido à experiência. Hume diz que
A primeira vista, nada pode parecer mais ilimitado do que pensamento humano, que não apenas escapa a toda autoridade e a todo poder do homem, mas também nem sempre é reprimido dentro dos limites da natureza e da realidade. Formar monstros e juntar formas e aparências incongruentes não causa à imaginação mais embaraço do que conceber os objetos mais naturais e mais familiares. Apesar de o corpo confinar-se num só planeta, sobre o qual se arrasta com sofrimento e dificuldade, o pensamento pode transportar-nos num instante às regiões mais distantes do Universo, ou mesmo, além do Universo, para o caos indeterminado, onde se supõe que a Natureza se encontra em total confusão. Pode–se conceber o que ainda não foi visto, ou ouvido, porque não há nada que esteja fora do poder do pensamento, exceto o que implica absoluta contradição. Entretanto, embora nosso pensamento pareça possuir esta liberdade ilimitada, verificaremos, através de um exame mais minucioso, que ele está realmente confinado dentro de limites muito reduzidos e que todo poder criador do espírito não ultrapassa a faculdade de combinar, de transpor, aumentar ou de diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experiência. Quando pensamos numa montanha de ouro, apenas unimos duas ideias compatíveis, ouro e montanha, que outrora conhecêramos. Podemos conceber um cavalo virtuoso, pois o sentimento que temos de nós mesmos nos permite conceber a virtude e podemos uni-la à figura e forma de um cavalo, que é um animal bem conhecido. Em resumo, todos os materiais do pensamento derivam de nossas sensações externas ou internas; mas a mistura e composição deles dependem do espírito e da vontade. Ou melhor, para expressar-me em linguagem filosófica: todas as nossas ideias ou percepções mais fracas são cópias de nossas impressões ou percepções mais vivas[1]
Hume diz que se tivesse em
nossas mãos qualquer livro de divindade ou de metafisica, devemos perguntar:
“Ele contém algum raciocínio abstrato relativo a quantidade ou números?”. Não.
“Ele contém algum raciocínio experimental relativo à matéria e à existência?”.
Não. Então, jogue-o no fogo, pois só contém sofismas e ilusões, o ceticismo de
Hume é tão intenso que ele duvida até da validade universal da causalidade,
Segundo Aranha e Martins “(...) Hume nega a validade do principio de
causalidade da noção de necessidade a ele associada, para Hume, o que
observamos é a sucessão de fatos ou a sequência de eventos e não o nexo causal
entre esses fatos e eventos”.
A lei da causalidade segundo
Lara (1984) é uma “(...) Alavanca preciosa para uma série de conclusões da
metafísica, inclusive, para as provas da existência de Deus”[2]. Hume diz que o principio
da causalidade é simples resultado de um hábito, de tanto experimentarmos um
fenômeno seguindo o outro começamos a achar que um é a causa do outro, o fato
de B sempre seguir A não significa que um seja a causa do outro, Hume vai dizer
que não podemos afirmar nada a respeito da causalidade, pois só podemos afirmar
o que está em nossa memória ou em nossos sentidos, e segundo ele Os poderes
particulares graças aos quais se realizam todas as operações naturais não se
manifestam aos sentidos.
Se para Descartes o “Eu”, ou
seja, a coisa pensante era o ponto central de sua filosofia, e de sua
epistemologia, isso vai mudar com Hume, pois para ele, não existe nenhuma
impressão correspondente à ideia de um “Eu”, Hume vai dizer que não há nada
relativamente ao Eu que esteja acima de um grande pacote de percepções
transitórias, quando falamos de um “Eu”, estamos falando na verdade de um grupo
de pensamentos, sentimentos e percepções, mas nunca apercebemos uma substancia
a qual possamos chamar de “Eu”, se o “Eu” fosse uma ideia ele teria que derivar
de uma impressão, e quando examinamos a fundo, percebemos que não existe nem
uma impressão correspondente à ideia de “Eu”. Hume diz que uma das características
do “Eu” é a identidade, mas não encontramos nenhuma impressão que nos leve a
criar essa ideia, pois, não há nenhuma impressão que permaneça a mesma para
sempre, sendo assim, a ideia de uma identidade, ou seja, algo estável e
permanente é uma ilusão. Assim como os mecanismos de causa e efeito não podem
ser percebido pelos sentidos, e por isso deve ser considerado simplesmente um
hábito, a ideia de substancia e de um “Eu”, um núcleo da personalidade, deve ser considerada uma ilusão, segundo Hume
não existe nenhuma experiência sensorial que nos leve a criar o conceito de
substancia, sendo apenas uma criação metafisica, e por isso deve ser lançada no
fogo, assim como o conceito de um núcleo estável da personalidade, Gaarder diz:
(...) é falsa a sensação de que nossa personalidade possui um núcleo constante. Nossa noção de eu compõe-se na verdade, de uma longa cadeia de impressões isoladas, que nunca conseguimos vivenciar simultaneamente. Hume fala de um “feixe de diferentes conteúdos de consciência, que se sucedem numa rapidez inimaginável, e que estão em constante fluxo e movimento”. Nossa mente seria então uma “espécie de teatro”, no qual estes diferentes conteúdos “se sucedem em suas entradas e saídas de cena, e se misturam numa infinidade desordenada de posições e de tipos[3].
Com os empiristas podemos
notar a valorização do objeto em detrimento do sujeito, enquanto que no
racionalismo, o oposto acontece, o sujeito se impõe, mas o objeto torna-se
obsoleto. O ceticismo de Hume foi o combustível que fez reacender a chama
adormecida em Kant, agora, essa discussão vai se tornar ainda mais
interessante, pois todos os filósofos precedentes estavam preparando o campo
para o grande filósofo de Koenigsberg.
[1]
HUME; David,
investigação sobre o entendimento humano, versão digitalizada, p. 10, 11
[2]
LARA, Tiago Adão. A filosofia ocidental do renascimento aos nossos dias
(caminhos da razão no ocidente) 4.ed. RJ.
Vozes. P 54.
[3] GAARDER, Jostein; O mundo de Sofia;
Tradução João Azenha; São Paulo: Companhia das Letras, 1995.p 293
Nenhum comentário:
Postar um comentário