quinta-feira, 4 de junho de 2015

René Descartes, pai do racionalismo moderno


              René Descartes, francês, nasceu em 1596 e morreu em 1650. Católico convicto, Descartes se propôs a encontrar um método seguro para o conhecimento na modernidade, O ponto de partida de Descartes, é a dúvida metódica e universal, ele começou a duvidar de todo conhecimento que havia recebido e que muitas vezes não sabia se eram verdades, Ferry (2007) diz: “Ele imagina até mesmo a hipótese de um gênio maligno que se divertiria em enganá-lo em qualquer situação, ou ainda se lembra de como, às vezes, em seus sonhos, acreditou que estava acordado, lendo ou passeando, quando de fato estava inteiramente nu, na cama” Descartes não queria construir a sua casa sobre fundamentos antigos, mas sim, colocar seus próprios fundamentos, o grande problema de se construir em fundamentos alheios, é que, não se sabe se são seguros, o receio de Descartes era o de levantar a sua casa sobre fundamentos velhos, fracos e que ruiriam com muita facilidade, por isso, ele rejeita os velhos fundamentos, os descontrói para edificar o seu.

Havia bastante tempo observara que, no que concerne aos costumes, é às vezes preciso seguir opiniões, que sabemos serem muito duvidosas, como se não admitissem dúvidas, conforme já foi dito acima; porém, por desejar então dedicar-me apenas a pesquisa da verdade. Achei que deveria agir exatamente ao contrário, e rejeitar como totalmente falso tudo aquilo em que pudesse supor a menor dúvida, com o intuito de ver se, depois disso, não restaria algo em meu crédito que fosse completamente incontestável (DESCARTES, RENÉ; Discurso do método. p 11)

Segundo Zilles (2006) Na segunda parte do discurso do método Descartes estabelece quatro princípios para chegar a uma certeza indubitável:

  1. “O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal: isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espirito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida” Trata-se da intuição.
  2. “O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las” Trata-se da análise.
  3. “O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, até o conhecimento dos mais compostos” Trata-se de partir do conhecido para chegar ao desconhecido.
  4. “O de fazer em toda a parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse a certeza de nada omitir” Trata-se da síntese.

Segundo Gaarder (1995) “Descartes explica que não devemos considerar nada verdadeiro, enquanto nós não tivermos reconhecido claramente que se trata de algo verdadeiro, para conseguirmos isto, temos de decompor um problema complicado em tantas partes isoladas quanto possível, e então podemos começar pelos pensamentos mais simples, podemos dizer que cada pensamento deve ser pesado e medido, maio ou menos como Galileu queria medir tudo e transformar em mensurável o que fosse incomensurável, Descartes acreditava que o filósofo, para construir um novo conhecimento, devia partir dos aspectos mais simples para chegar aos mais complicados, por fim, ele devia testar através de cálculos e mais cálculos se nada tinha sido deixado de fora, só assim, acreditava Descartes, se poderia chegar a conclusões filosóficas.” Descartes sabia que não podia confiar nos sentidos, pois eles sempre nos enganam, às vezes sonhamos, e nosso sonho parece ser muito real, Jeppe Vom Berge também acreditava ter sonhado que dormia na cama de um barão, e quando estava na cama do barão achava que sua vida, como pobre camponês, não passava de um sonho, É por isso que Descartes acaba duvidando de tudo, inclusive da existência do seu próprio corpo.

Descartes percebeu que poderia duvidar de tudo, menos, de que ele duvidava, ou seja, de que ele era uma criatura pensante, e que para pensar é preciso existir, não havia como duvidar, se penso, logo existo, Cogito ergo sum, Descartes percebeu que a primeira verdade que ele poderia ter acesso era á da sua existência, mas existência como pensamento, pois ele ainda duvidava da existência do seu corpo e da matéria, o “EU” cartesiano é um puro pensamento, uma alma, através da razão Descartes pode ter acesso á ideias claras, inatas, não porque já se nasce com elas, mas porque são resultado exclusivo da capacidade de pensar, nessa classe estão á ideia da substância infinita de Deus e a ideia de substância finita, mas Descartes ainda continuava no mundo do pensamento, como sair do pensamento e recuperar o mundo, a matéria? Para tal, Descartes lança a famosa prova ontológica da existência de Deus, ele diz: Pense em um ser perfeito, esse ser é Deus, mas para ser perfeito ele precisa existir faltasse a perfeição da existência,   ele não seria perfeito, portanto, para ser perfeito é necessário que ele exista, Descartes dizia que a noção de perfeição não poderia vir dele mesmo, pois a noção de perfeição não pode brotar da imperfeição, sendo assim, a noção de um ser perfeito tinha de vir, naturalmente, de outro ser perfeito, em outras palavras: tinha de vir de Deus. Por ser perfeito, ele não me enganaria, nem me faria ter impressões erradas á respeito da realidade, então é certo que as impressões que recebo do mundo são reais, portanto o mundo existe, Descartes conclui que seu corpo é real.

Através da razão o homem pode descobrir todas as verdades possíveis ao espírito segundo Descartes, mas podemos perceber que com o seu método, Descartes traz uma forte dicotomia á existência, pois ele divide tudo em dois grupos, res cogitans e res extensa, ou seja, o mundo do pensamento ou da alma e o mundo material que é uma extensão. O mundo do pensamento não ocupa lugar no espaço, portanto não está limitado ás leis deterministas da natureza, ou seja, no mundo do pensamento é onde predomina a liberdade, a matéria, que é extensão, está restringida às leis da natureza, ao mundo determinístico. Segundo Aranha e Martins “(...) Outra consequência é o dualismo psicofísico (ou dicotomia corpo-consciência), segundo o qual o homem é um ser duplo, composto de uma substancia pensante e uma substancia extensa, a conciliação das duas substâncias dificulta a reflexão de Descartes e gera antagonismos que serão objetos de debates nos dois séculos subsequentes, isso porque o corpo é uma realidade física e fisiológica e, como tal, possui massa, extensão no espaço e movimento, bem como desenvolve atividades de alimentação, digestão etc., estando, portanto, sujeito às leis deterministas da natureza, por outro lado, os fenômenos mentais não tem extensão no espaço, nem localização, as principais atividades da mente são recordar, raciocinar, conhecer e querer; portanto, não se submete às leis da física, mas é o lugar da liberdade”.

Com Descartes vai surgir a subjetividade, ou seja, o sujeito que através da sua consciência vai decidir o que é a verdade, para os modernos a subjetividade  é onde se encontra o critério mais seguro da verdade, através do método critico o homem moderno pode ter acesso ao conhecimento por si só, ou seja surge a autonomia do sujeito, Descartes proporcionou não só um método que elevava a razão universal, mas também que tornava o homem, portador desta razão,  como soberano autônomo capaz de decidir sozinho sobre o que é verdadeiro ou não. Depois de Descartes o homem moderno rejeita todo tipo de autoridade que tente lhe impor uma verdade exterior, seja a igreja, família, estado, ou qualquer outra instituição, só vai ser aceito como verdade pelo sujeito autônomo aquilo que passar pelo escrutínio da razão, Ferry (2007) diz “Nada nos obriga a respeitar para sempre as tradições, ao contrário, quando elas não são boas, é preciso rejeitá-las e muda-las, ou seja, é preciso fazer uma “tábula rasa do passado” para reconstruir tudo de novo”. Essa reconstrução é baseada no sujeito que toma posse de si mesmo, em transparência total, e que a partir daí, só confia em si mesmo.

REFERÊNCIAS

GAARDER, jostein. o mundo de sofia: São Paulo: Companhia das letras. 1995, (Romance da história da filosofia)
ZILLES, Urbano. Teoria do Conhecimento. 5.ed.- Porto Alegre: Edipucres, 2006.
DESCARTES, René. Discurso do Método.- São Paulo: Escala Educacional, 2006
ARANHA, Maria Lúcia De Arruda; MARTINS, Maira Helena Pires. Filosofando; introdução à Filosofia. Editora Moderna.
FERRY, Luc. Aprender a viver, 2007.

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