segunda-feira, 8 de junho de 2015

Empirismo


           O racionalismo cartesiano teve adeptos importantes como Leibnitz e Spinosa, mas a modernidade não foi marcada somente por esses pensadores, começa a surgir neste debate pessoas que não vão enxergar no racionalismo a melhor explicação para uma teoria do conhecimento, se para os racionalistas existiam ideias inatas, e por inatas entendemos ideias que são anteriores as experiências, ou seja, são produto exclusivos da razão e do raciocínio, para os empiristas a fonte mais segura é a experiência, pois segundo eles a mente é totalmente vazia de conteúdo, enquanto não vivermos uma experiência sensorial, antes de qualquer experiência nossa mente é como um quadro em branco, uma tábula rasa, a visão empirista teve sua origem em Aristóteles para quem nada há na mente que não tenha passado antes pelos sentidos, Aristóteles estava se opondo ao inatismo platônico, que dizia que ao vir ao mundo, o homem trazia consigo ideias inatas do mundo das ideias, temos que salientar que existe uma diferença entre o inatismo platônico e o cartesiano, para Platão ao nascermos trazemos consigo ideias inatas do mundo ideias, Platão acreditava em uma realidade autônoma por trás do mundo dos sentidos (onde tudo está em constante mudança, como dizia Heráclito) a esta realidade Platão chamou de mundo das ideias onde reside as essências eternas e imutáveis, nela estão contidas as imagens padrão encontradas na natureza, essas formas são imutáveis e eternas, por trás de toda multiplicidade de cavalos existente no mundo sensível, Platão diz que a ideia cavalo, por exemplo, é una, imutável e constitui a verdadeira realidade no mundo das ideias, o mundo sensível é ilusório e somente uma cópia do mundo real ( que é o mundo das ideias), quando vem ao mundo o homem traz consigo o conhecimento do mundo das ideias adormecido em sua alma, que agora está aprisionada em um corpo, os sentidos constituem apenas uma ocasião para despertar nas almas as lembranças adormecidas, para Platão conhecer é lembrar. Para Descartes o homem atinge ideias claras e distintas através da razão, que é universal, essas ideias são inatas, mas não porque nascemos com elas, como dizia Platão, mas sim, porque são anteriores a toda experiência sensorial, elas são exclusivas da capacidade de pensar, Aranha e Martins diz: “(...)  São as ideias inatas que não estão sujeitas a erro pois vêm da razão, independentemente das ideias que vem de fora, formadas pela ação dos sentidos, e das outras que nós formamos pela imaginação, são inatas não no sentido de o homem já nascer com elas, mas como resultantes exclusivas da capacidade de pensar”.[1]

          O empirismo, assim como o racionalismo, teve vários teóricos, dentre eles Francis Bacon, Jhon Locke, Berkeley e David Hume, a princípio comentaremos de maneira breve sobre as contribuições de Locke e Berkeley culminando com o ceticismo de Hume.
Jhon Locke ficou conhecido pelo termo “Tábula rasa” que ele empregou para descrever o estado do homem antes de qualquer experiência sensorial, ele se contrapôs aos racionalistas, dizendo que antes da experiência a mente é como uma sala vazia, sem nenhum objeto, uma página em branco, Locke argumenta que todo conhecimento começa com ideias simples, essas ideias são os blocos de construção do conhecimento, para ele, ideia é tudo o que está na mente, essas ideias podem vir das sensações ou da reflexão, mas a fonte maior é as sensações. Tudo o que percebemos pelos sentidos (olfato, paladar, tato, audição, visão) é chamado de realidade empírica, a reflexão abrange percepção, pensamento, dúvida, raciocínio, e outras atividades da mente, a mente recebe as informações simples de maneira passiva, e através de sua ação sobre elas surgem as ideias complexas, através de ações como, combinar, comparar, compor, abstrair e relacionar, a mente atua sobre as ideias simples e formula ideias complexas. Quando como uma maçã eu recebo as ideias simples como; cor, cheiro, tamanho, sabor, e através dessas impressões simples a mente cria a ideia complexa de maçã.

John Locke diz que existem nos objetos dois tipos de qualidades, às primárias e secundárias, as qualidades primárias são inerentes aos objetos, como tamanho, peso, extensão, movimento, número. Sempre podemos estar certos que nossos sentidos produzem a realidade das coisas, pois são objetivas, posso dizer que existem 10 maçãs em minha casa, este é um fato objetivo, uma qualidade primária, posso dizer que essas maçãs pesam 10 quilos, e isso pode ser confirmado ou refutado, pelo simples fato de observar se realmente tenho a quantidade de maçãs que descrevi, e se elas possuem o peso dito, quando estou em contato com a realidade primária estou em contato com a coisa em si, ou seja, sua realidade material. As qualidades secundárias não estão contidas no objeto, mas são as qualidades que os objetos têm de criar em nós, sendo assim, ela varia de pessoa a pessoa, posso achar as maçãs apetitosas, mas não posso esperar que todos também o achem, posso achar a cor vermelha da maçã bonita, mas isso não garante que todos a acharão, sendo assim as qualidades primárias são inerentes a coisa em si, podendo todos concordar com ela, já as qualidades secundárias, como gosto, cor, cheiro, variam de animal para animal de homem para homem, sendo  algo subjetivo.

George Berkeley, assim como Locke e Descartes, também tem uma frase que descreve a sua filosofia, “Ser é ser percebido”, Berkeley discorda da divisão feita por Locke a respeito das qualidades primárias e secundarias, para Berkeley só existe aquilo que se apresenta aos nossos sentidos, não existe uma essência metafisica, nem uma realidade objetiva (qualidades primárias) sem ser percebida, ou seja, só existe o que percebemos, o sistema de Berkeley é chamado de imaterialismo e causou muitas polêmicas, como: “Se uma arvore cair na floresta e não tiver ninguém por perto, será que ela vai fazer barulho?”, perguntas assim sempre eram levantadas por críticos, mas o que Berkeley diz é que na verdade, a árvore, tanto quanto a floresta, só existem enquanto são percebidas, se não tem um observador, também não terá, floresta, muito menos, arvores caindo, Berkeley diz: “Toda ordem dos céus e todas as coisas que preenchem a terra- em suma, todos aqueles corpos que compõem a enorme estrutura do mundo- não possuem nenhuma subsistência sem uma mente”. Segundo Sproul (2002) “Antes de ir dormir ontem à noite, dei comida ao peixe no lago artificial ao lado da minha casa, quando acordei hoje pela manhã, fui lá fora e novamente dei comida ao peixe, meu peixe e o lago continuaram existindo enquanto eu dormia e não os percebia?” “Podemos presumir que eles continuaram existindo durante a noite porque estavam ali novamente de manhã, mas eles não estavam toda noite em minha mente porque eu não os estava percebendo, minha ideia do lago e do peixe estava li na noite passada e minha ideia estava ali pela manhã, nas duas ocasiões minha percepção deles foi passiva e involuntária, (...) Nesse ponto Berkeley voltou-se para Deus como a causa ultima das ideias involuntárias, ele apela a Deus para explicar a objetividade intersubjetiva do mundo real, Deus se torna o percebedor indispensável cujas ideias servem de base para toda realidade”[2].   





[1] ARANHA, MARTINS. Filosofando, introdução à filosofia. Editora Moderna. P 104.
[2] SPROUL, R.C. Filosofia para iniciantes. São Paulo: Vida nova, 2002. P 104 

Um comentário: