segunda-feira, 8 de junho de 2015

Empirismo


           O racionalismo cartesiano teve adeptos importantes como Leibnitz e Spinosa, mas a modernidade não foi marcada somente por esses pensadores, começa a surgir neste debate pessoas que não vão enxergar no racionalismo a melhor explicação para uma teoria do conhecimento, se para os racionalistas existiam ideias inatas, e por inatas entendemos ideias que são anteriores as experiências, ou seja, são produto exclusivos da razão e do raciocínio, para os empiristas a fonte mais segura é a experiência, pois segundo eles a mente é totalmente vazia de conteúdo, enquanto não vivermos uma experiência sensorial, antes de qualquer experiência nossa mente é como um quadro em branco, uma tábula rasa, a visão empirista teve sua origem em Aristóteles para quem nada há na mente que não tenha passado antes pelos sentidos, Aristóteles estava se opondo ao inatismo platônico, que dizia que ao vir ao mundo, o homem trazia consigo ideias inatas do mundo das ideias, temos que salientar que existe uma diferença entre o inatismo platônico e o cartesiano, para Platão ao nascermos trazemos consigo ideias inatas do mundo ideias, Platão acreditava em uma realidade autônoma por trás do mundo dos sentidos (onde tudo está em constante mudança, como dizia Heráclito) a esta realidade Platão chamou de mundo das ideias onde reside as essências eternas e imutáveis, nela estão contidas as imagens padrão encontradas na natureza, essas formas são imutáveis e eternas, por trás de toda multiplicidade de cavalos existente no mundo sensível, Platão diz que a ideia cavalo, por exemplo, é una, imutável e constitui a verdadeira realidade no mundo das ideias, o mundo sensível é ilusório e somente uma cópia do mundo real ( que é o mundo das ideias), quando vem ao mundo o homem traz consigo o conhecimento do mundo das ideias adormecido em sua alma, que agora está aprisionada em um corpo, os sentidos constituem apenas uma ocasião para despertar nas almas as lembranças adormecidas, para Platão conhecer é lembrar. Para Descartes o homem atinge ideias claras e distintas através da razão, que é universal, essas ideias são inatas, mas não porque nascemos com elas, como dizia Platão, mas sim, porque são anteriores a toda experiência sensorial, elas são exclusivas da capacidade de pensar, Aranha e Martins diz: “(...)  São as ideias inatas que não estão sujeitas a erro pois vêm da razão, independentemente das ideias que vem de fora, formadas pela ação dos sentidos, e das outras que nós formamos pela imaginação, são inatas não no sentido de o homem já nascer com elas, mas como resultantes exclusivas da capacidade de pensar”.[1]

          O empirismo, assim como o racionalismo, teve vários teóricos, dentre eles Francis Bacon, Jhon Locke, Berkeley e David Hume, a princípio comentaremos de maneira breve sobre as contribuições de Locke e Berkeley culminando com o ceticismo de Hume.
Jhon Locke ficou conhecido pelo termo “Tábula rasa” que ele empregou para descrever o estado do homem antes de qualquer experiência sensorial, ele se contrapôs aos racionalistas, dizendo que antes da experiência a mente é como uma sala vazia, sem nenhum objeto, uma página em branco, Locke argumenta que todo conhecimento começa com ideias simples, essas ideias são os blocos de construção do conhecimento, para ele, ideia é tudo o que está na mente, essas ideias podem vir das sensações ou da reflexão, mas a fonte maior é as sensações. Tudo o que percebemos pelos sentidos (olfato, paladar, tato, audição, visão) é chamado de realidade empírica, a reflexão abrange percepção, pensamento, dúvida, raciocínio, e outras atividades da mente, a mente recebe as informações simples de maneira passiva, e através de sua ação sobre elas surgem as ideias complexas, através de ações como, combinar, comparar, compor, abstrair e relacionar, a mente atua sobre as ideias simples e formula ideias complexas. Quando como uma maçã eu recebo as ideias simples como; cor, cheiro, tamanho, sabor, e através dessas impressões simples a mente cria a ideia complexa de maçã.

John Locke diz que existem nos objetos dois tipos de qualidades, às primárias e secundárias, as qualidades primárias são inerentes aos objetos, como tamanho, peso, extensão, movimento, número. Sempre podemos estar certos que nossos sentidos produzem a realidade das coisas, pois são objetivas, posso dizer que existem 10 maçãs em minha casa, este é um fato objetivo, uma qualidade primária, posso dizer que essas maçãs pesam 10 quilos, e isso pode ser confirmado ou refutado, pelo simples fato de observar se realmente tenho a quantidade de maçãs que descrevi, e se elas possuem o peso dito, quando estou em contato com a realidade primária estou em contato com a coisa em si, ou seja, sua realidade material. As qualidades secundárias não estão contidas no objeto, mas são as qualidades que os objetos têm de criar em nós, sendo assim, ela varia de pessoa a pessoa, posso achar as maçãs apetitosas, mas não posso esperar que todos também o achem, posso achar a cor vermelha da maçã bonita, mas isso não garante que todos a acharão, sendo assim as qualidades primárias são inerentes a coisa em si, podendo todos concordar com ela, já as qualidades secundárias, como gosto, cor, cheiro, variam de animal para animal de homem para homem, sendo  algo subjetivo.

George Berkeley, assim como Locke e Descartes, também tem uma frase que descreve a sua filosofia, “Ser é ser percebido”, Berkeley discorda da divisão feita por Locke a respeito das qualidades primárias e secundarias, para Berkeley só existe aquilo que se apresenta aos nossos sentidos, não existe uma essência metafisica, nem uma realidade objetiva (qualidades primárias) sem ser percebida, ou seja, só existe o que percebemos, o sistema de Berkeley é chamado de imaterialismo e causou muitas polêmicas, como: “Se uma arvore cair na floresta e não tiver ninguém por perto, será que ela vai fazer barulho?”, perguntas assim sempre eram levantadas por críticos, mas o que Berkeley diz é que na verdade, a árvore, tanto quanto a floresta, só existem enquanto são percebidas, se não tem um observador, também não terá, floresta, muito menos, arvores caindo, Berkeley diz: “Toda ordem dos céus e todas as coisas que preenchem a terra- em suma, todos aqueles corpos que compõem a enorme estrutura do mundo- não possuem nenhuma subsistência sem uma mente”. Segundo Sproul (2002) “Antes de ir dormir ontem à noite, dei comida ao peixe no lago artificial ao lado da minha casa, quando acordei hoje pela manhã, fui lá fora e novamente dei comida ao peixe, meu peixe e o lago continuaram existindo enquanto eu dormia e não os percebia?” “Podemos presumir que eles continuaram existindo durante a noite porque estavam ali novamente de manhã, mas eles não estavam toda noite em minha mente porque eu não os estava percebendo, minha ideia do lago e do peixe estava li na noite passada e minha ideia estava ali pela manhã, nas duas ocasiões minha percepção deles foi passiva e involuntária, (...) Nesse ponto Berkeley voltou-se para Deus como a causa ultima das ideias involuntárias, ele apela a Deus para explicar a objetividade intersubjetiva do mundo real, Deus se torna o percebedor indispensável cujas ideias servem de base para toda realidade”[2].   





[1] ARANHA, MARTINS. Filosofando, introdução à filosofia. Editora Moderna. P 104.
[2] SPROUL, R.C. Filosofia para iniciantes. São Paulo: Vida nova, 2002. P 104 

domingo, 7 de junho de 2015

O Leão A Feiticeira e o Guarda-Roupa: O Cristianismo e o Leão





O Leão a feiticeira e o Guarda-Roupa conta a história de quatro crianças que se refugiaram na casa de um professor para fugir da segunda guerra mundial. Essas crianças, que se chamam: Lúcia, Edmundo, Susana e Pedro, vão encontrar um guarda-roupa em um dos quartos da casa que vai servir como um portal para uma terra misteriosa chamada Nárnia. Nárnia é habitada por faunos, Dríades, Centauros etc... Eles vivem dominados pela feiticeira branca que se chama Jadis. Em Nárnia sempre é inverno devido à maldição da Feiticeira Branca, mas existia uma profecia de que o mal seria abolido quando a carne de Adão se assentasse no trono de Cair Paravel.

Quando a carne de Adão,
Quando o osso de Adão,
Em Cair Paravel,
No trono sentar,
Então há de chegar
Ao fim a aflição.


Sabendo da existência dessa profecia a Feiticeira Branca vivia temendo que ela se cumprisse. Os habitantes de Nárnia ansiavam pela chegada de Aslam, pois quando ele chegasse todo mal seria dissipado, o Sr. Castor diz isso com muita clareza:

O mal será bem quando Aslam chegar,
Ao seu rugido, a dor fugirá,
Nos seus dentes, o inverno morrerá,
Na sua juba, a flor há de voltar.
– Quando vocês virem Aslam hão de entender tudo.


Os narnianos tinham a esperança de que um dia Nárnia voltaria a ser como antigamente, quando eles cantavam, dançavam com as Dríades e trocavam presentes ao som das baladas de Nárnia. Assim como os judeus dos tempos de Cristo, que acreditavam que o Messias viria e os libertaria do julgo de Roma e estabeleceria a paz em Israel, os habitantes de Nárnia acreditavam que com a vinda de Aslam tudo se resolveria, podemos notar que Aslam é o personagem central do livro, em torno dele se desenrola a história da Criação, Redenção e Consumação.  Veith comenta que a figura de Aslam é a alma de toda a série As Crônicas de Nárnia. Com Aslam, a fantasia torna-se uma alegoria. Aslam é o centro do significado das histórias e a principal fonte de sua visão. Aslam sem dúvida é o símbolo de Lewis para Jesus Cristo[1]. O Próprio Lewis escrevendo para um amigo disse que:
Na realidade, entretanto, ele (Aslam) é uma invenção na tentativa de responder à pergunta imaginária, “Como Cristo seria se realmente houvesse um mundo como Nárnia e ele escolhesse encarnar, morrer e ressuscitar, como já fez em nosso mundo?” (Lewis, em carta para um amigo).[2]
A palavra “Aslam” é simplesmente um termo persa que significa Leão[3], nas escrituras Jesus é retratado como “Leão de Judá, a Raiz de Davi, aquele que venceu para abrir o livro e desatar os seus sete selos.”[4]. Alguns Cristãos se preocupam com a descrição que Lewis faz de Cristo como um leão. Isso poderia ser idolatria? Mais uma vez, como vimos, o Leão é um símbolo bíblico que representa Cristo, por isso é impossível haver algo intrinsecamente errado com o uso desse símbolo em uma história[5].
Colin Duriez comentando sobre As Crônicas diz que, no centro da teologia de Nárnia está, certamente, Aslam, que é a encarnação do divino na forma corporal (no caso de Nárnia, o corpo de um leão falante). Lewis considera a encarnação como a doutrina central da fé cristã[6].
A imagem de um Leão como protetor, criador, etc... Provoca um sentimento de medo e alegria ao mesmo tempo, algo que Lewis chamou de Numinoso[7]. “Lewis passou a crer que somente em Cristo é possível encontrar uma doutrina e uma história que inspira alegria e terror, beleza e medo.” [8]  Quando o Sr. Castor diz às crianças que elas devem se encontrar com Aslam na Mesa de Pedra, Suzana fica receosa com medo de encarar um Leão, ela indaga se ele é inofensivo, ao que o Sr. Castor responde: “Ele não é inofensivo, mas ele é bom”. Por outro lado, o simples fato de mencionar o nome de Aslam causava os melhores sentimentos aos seus ouvintes, ou os piores, no caso de Edmundo, podemos ver isso em uma conversa das crianças com o Sr. Castor:
– Dizem que Aslam está a caminho; talvez até já tenha chegado.

E aí aconteceu uma coisa muito engraçada. As crianças ainda não tinham ouvido falar de Aslam, mas no momento em que o castor pronunciou esse nome, todos se sentiram diferentes. Talvez isso já tenha acontecido com você em sonho, quando alguém lhe diz qualquer coisa que você não entende, mas que, no sonho, parece ter um profundo significado – o qual pode transformar o sonho em pesadelo ou em algo maravilhoso, tão maravilhoso que você gostaria de sonhar sempre o mesmo sonho. Foi o que aconteceu. Ao ouvirem o nome de Aslam, os meninos sentiram que dentro deles algo vibrava intensamente. Para Edmundo, foi uma sensação de horror e mistério. Pedro sentiu-se de repente cheio de coragem. Para Susana foi como se um aroma delicioso ou uma linda ária musical pairasse no ar. Lúcia sentiu-se como quem acorda na primeira manhã de férias ou no princípio da primavera.

Nas Crônicas de Nárnia percebemos que a volta de Aslam é precedida pela chegada do Papai Noel que marcava o fim do inverno e a ruina do reino do mal, algo que deixou a Feiticeira Branca muito desconcertada, pois ela percebeu que seu domínio estava com os dias contados. Veith comenta que sob o domínio da feiticeira, há sempre inverno, mas nunca Natal, a chegada de Aslam significa a quebra do feitiço. Agora não só o inverno está passando, mas o Natal também chega! Inúmeros críticos não gostam dessa cena. Dizem que ela mistura uma lenda de nosso mundo com Nárnia, violando o mundo fechado da fantasia. A cena do Bom Velhinho tem uma importante função simbólica, ela relaciona o Natal à chegada de Aslam. Portanto, ressalta o significado de Lewis, para que não haja dúvida alguma. A figura de Aslam no mundo da fantasia representa Cristo no mundo real[9].
Quando lemos o livro O Leão, a Feiticeira e o Guarda Roupa descobrimos que Edmundo, que era irmão de Pedro, Susana e Lúcia, havia os traído e se juntando à Feiticeira Branca, pois pensou que receberia mais manjar turco e que juntamente com a Feiticeira governaria Nárnia e inclusive Pedro, seu irmão, que às vezes o repreendia por suas infantilidades. Por ter traído seus irmãos Edmundo deveria morrer, pois a Lei exigia que o sangue do traidor fosse derramado. Nesse período Aslam aparece e voluntariamente se entrega como um substituto de Edmundo. Ele decide morrer para que Edmundo pudesse viver. Alister McGrath diz que,

Aslam concorda em agir como um substituto de Edmundo. Ele morrerá para que Edmundo possa viver. Sem ter consciência do que está prestes a acontecer, Lúcia e Suzana seguem Aslam enquanto ele caminha rumo à Mesa de Pedra, para ser atado se aceitar a própria morte pelas mãos da Feiticeira Branca. A cena é tão comovente quanto horrenda, e se assemelha em alguns pontos – não em todos – aos relatos do Novo Testamento sobre as horas finais de Cristo no Getsêmani e sua subsequente crucificação. Aslam é sacrificado, entre os uivos da multidão, que zomba do agonizante[10].

Aslam foi humilhado e sofreu todas as afrontas calado, por fim, ele foi morto, e seu corpo ficou ensanguentado sobre a Mesa de Pedra, nesse momento Lúcia e Susana que estavam vendo tudo escondidas, se aproximam, e começa a acariciar o rosto de Aslam e a chorar profundamente.  Quando começou a ficar tarde elas sentindo frio começaram a olhar para o mar e para Cair Paravel quando algo inesperado aconteceu, veio um barulho muito forte, quando elas olharam para a Mesa de Pedra viram que ela havia se fendido (assim como o véu do templo) e que o corpo de Aslam não estava mais lá. Elas ficaram desesperadas pensando que alguém havia roubado o corpo de Aslam.

– Oh! Oh! Oh! – gritaram as meninas, correndo para a mesa.
– Isso é demais! Podiam ao menos ter deixado o corpo em paz.

Depois tudo inesperadamente se transforma. Aslam retorna à vida. As testemunhas desse momento dramático são somente Lúcia e Susana, num paralelismo com o Novo Testamento em que as primeiras testemunhas da ressureição de Cristo foram três mulheres[11]. Quando elas avistaram Aslam ressuscitado se atiraram sobre ele e o cobriu de beijos. Aslam explica que a Feiticeira Branca não conhecia a magia mais profunda que dizia que se uma vítima voluntária, inocente de traição, fosse executada no lugar de um traidor, a mesa estalaria e a própria morte começaria a andar para trás.
McGrath comenta que “Assim, Aslam revive e Edmundo é libertado de qualquer reinvindicação legítima da Feiticeira Branca. E mais coisas vão acontecer. O pátio do castelo da Feiticeira Branca está repleto de narnianos que foram petrificados pela Feiticeira. Depois de sua ressureição, Aslam arromba a porta do castelo, irrompe no pátio, sopra sobre as estátuas e as restaura para a vida. Finalmente ele conduz o exército liberado pelas portas arrombadas da outrora grande fortaleza para lutar pela liberdade de Nárnia”.[12]
Por fim, a Feiticeira e seu exército são derrotados em uma batalha liderada por Pedro e Aslam e Nárnia volta a ser como antigamente. Podemos perceber que Aslam é um símbolo do verdadeiro Leão, Jesus Cristo. Edmundo simboliza o ser humano aprisionado pelo pecado. A feiticeira Jadis é uma figura do reino do mal. A auto entrega de Aslam, seu sacrifício e sua volta à vida representam a crucificação e ressurreição de Jesus.


Aslam não pode se tornar um ídolo?


Algumas pessoas podem pensar que a descrição de Cristo como um Leão (Aslam) possa levar à idolatria, ou até mesmo levar alguém a adorar Aslam. Um jovem por nome Laurence de 9 anos de idade estava preocupado com medo de amar mais a Aslam que Jesus, sua mãe escreveu para Lewis relatando o fato, ao que Lewis respondeu:


Laurence não pode, de fato, amar mais Aslam do que a Jesus, mesmo que sinta que é isso que está fazendo. Ora, as coisas que ele gosta de ver Aslam fazer ou dizer são simplesmente as coisas que Jesus realmente fez e disse. De maneira que, ao achar que está amando Aslam, Laurence está realmente amando á Jesus: e talvez o amando mais do que já amou antes. Sem dúvida, há uma coisa que Aslam tem que Jesus não tem – quero dizer, o corpo de um Leão (...). Agora se Laurence está preocupado porque acha que o corpo de um Leão parece mais bonito para ele do que o corpo de um homem. Não acho que ele precise se preocupar. Deus sabe perfeitamente como funciona a imaginação de um menino (afinal, foi ele quem a criou) e sabe que, em uma determinada idade, a ideia de animais falantes e amigáveis é muito atrativa. Portanto, não que ele se importa se Laurence gosta do corpo de um Leão. E, de qualquer maneira, Laurence descobrirá, quando ficar velho, que essa sensação (de gostar mais do corpo de um leão) desaparecerá sozinha, sem que ele tenha qualquer dificuldade nesse sentido. Por isso ele não precisa se preocupar.[13]

Lewis sugeriu que Laurence orasse a Deus pedindo que ele tirasse todo sentimento ruim do seu coração, e orasse por Lewis também, para que Deus o perdoasse se acaso houvesse causado mal á alguma criança com seus livros, algo que não era a intenção. Lewis observou que geralmente a maioria das crianças conseguiam identificar que Aslam é Jesus. Em uma carta para uma menina de 11 anos chamada Hila, ele a ajudou a fazer a relação de Aslam com Jesus.


Quanto ao outro nome de Aslam, eu quero que você adivinhe. Já houve alguém neste mundo que: (1) chegou no tempo do natal, (2) disse ser o filho do grande imperador, (3) entregou-se a si mesmo por causa da falta de outra pessoa, para ser zombado e morto por pessoas ímpias, (4) voltou à vida e (5) refere-se algumas vezes a ele como cordeiro? Você tem certeza que não sabe mesmo seu nome neste mundo?[14]
A garotinha havia perguntado sobre o outro nome que Aslam diz ter em a Viagem do Peregrino da Alvorada, vejamos a passagem:
  

– Nosso mundo é Nárnia – soluçou Lúcia.
– Como poderemos viver sem vê-lo?
– Você há de encontrar-me, querida – disse Aslam.
– Está também em nosso mundo? – perguntou Edmundo.
– Estou. Mas tenho outro nome. Têm de aprender a conhecer-me por esse nome.
– Foi por isso que os levei a Nárnia, para que, conhecendo-me um pouco, venham a conhecer-me melhor.
Lewis mostra claramente a relação existente entre Cristo e Aslam.



O Pecado de Edmundo

Edmundo, depois de Lúcia, foi o primeiro a entrar em Nárnia. Lewis narra que ele, ao entrar, teve um encontro com a Feiticeira Branca. Quando se encontra com a Feiticeira, Edmundo admira a beleza dela, e ela pergunta o que ele gostaria de comer, ele pede Manjar Turco, ao que ela responde lhe dando o melhor Manjar que ele poderia comer. Enquanto come o manjar ele conta tudo o que ela queria saber, inclusive que sua irmã, Lúcia, já havia estado ali e conhecera um fauno. Quando o manjar acaba, Edmundo pede mais, ao que a Feiticeira diz que só lhe daria mais se ele trouxesse seus irmãos para ela conhecer. Edmundo deseja o manjar da feiticeira e fará qualquer coisa para obtê-lo, inclusive trair seus irmãos, não se importando com as consequências de seus atos. “Os prazeres do pecado são assim, Edmundo fica viciado no manjar turco da feiticeira, de igual modo, os viciados em drogas desenvolvem tais desejos a ponto de mentirem, roubarem e até matarem para conseguir outra porção delas (...). Uma das características de um vício é que, à medida que o desejo aumenta, o verdadeiro prazer diminui, exigindo cada vez mais estímulo para se alcançar o efeito desejado (...). O manjar turco também simboliza o sentido em que o pecado escraviza.”[15]. O pecado promete liberdade, mas o que verdadeiramente ele nos dá é a escravidão[16].
Edmundo havia se tornado escravo de seus desejos, a ponto de fazer qualquer coisa para saciá-los. Em O Senhor dos Anéis o objeto utilizado para representar essa verdade é o Um Anel, que torna Gollum seu escravo, faz dele um ser miserável, e egoísta, que matou o próprio amigo para ficar com o anel, em virtude disso ele vivia isolado em uma caverna, na escuridão e na agonia.
Quando chega à casa da Feiticeira, Edmundo implora por Manjar. Mas, ao contrário disso, o que ele recebe é um pedaço de pão seco e uma estada no calabouço. Como ocorreu com Golum, Edmundo estava isolado, na escuridão e agonia. Todo aquele que se torna escravo do pecado termina como Edmundo, sendo um escravo de sua vontade e de seus desejos. Edmundo, como mencionado anteriormente, representa o pecador. Cuja vontade é totalmente sujeita aos seus desejos mal direcionados. O que a feiticeira fez foi simplesmente apelar para o próprio ego de Edmundo, prometendo que lhe daria todos os manjares que desejasse, e que ele um dia chegaria a reinar, inclusive sobre seus irmãos. Edmundo descobriu de uma forma muito difícil, que não se pode confiar nas promessas da Feiticeira, e que ele havia cometido muitos erros, inclusive com sua irmã Lúcia. Ele recordou de quando, apesar de ter confessado à Lúcia que também havia atravessado o Guarda Roupa, a desmente na frente de seus outros irmãos. Edmundo fez isso mesmo vendo-a contando-lhes, toda contente, que ele poderia confirmar a história dela. Na ocasião ele, maldoso, se vira contra sua irmã e diz que inventou tudo[17]. Podemos perceber que, Edmundo se mostrou cruel, mesquinho e egoísta, ele sentiu prazer em debochar de Lúcia, mesmo sabendo que ela estava dizendo a verdade.
Depois de sua experiência com a Feiticeira Branca Edmundo descobriu que os prazeres do pecado logo deixam de ser prazeres. Todo prazer, no final, vem de Deus, e somente os prazeres exercidos na sua vontade poderão satisfazer o homem verdadeiramente. Após ser resgatado, Edmundo arrependido, se encontra com Aslam que o chama de lado para terem uma longa conversa, quando Edmundo volta, Aslam diz que não é necessário se lembrar do passado, o que passou deve ser esquecido. Algo aconteceu com Edmundo após ter conversado com Aslam, porque ele está diferente de antes, ele pede desculpas para Lúcia, Susana e Pedro e todos o aceitam. Edmundo passa a se importar com Nárnia e os outros, a ponto de querer ficar e lutar por Nárnia. Todos que se encontram verdadeiramente com Aslam são mudados. Pedro, por exemplo, se tornou um grande líder e Edmundo criou maturidade e deixou de ser egoísta.
 
REFERÊNCIAS
AS CRÔNICAS DE NÁRNIA E A FILOSOFIA: O Leão a Feiticeira e a visão do Mundo. Editores, Gregory Bashram e Jerry L. Wall; Tradução de Marcos Malvezzi. São Paulo: Madras, 2006.
O EVANGELHO DE NÁRNIA: Ensaios para decifrar C.S. Lewis / Gabriele Greggersen org – São Paulo: Vida Nova, 2006.
A ALMA DE O LEÃO A FEITICEIRA E O GUARDA ROUPA / Gene Veith; Tradução de Valéria Lamim Delgado Fernandes. – Rio de Janeiro: Habacuc. 2006.
DESCUBRA NÁRNIA – VERDADES EM: As Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis, Christin Ditchfield. Tradução Hedy Maria Scheffer Silvado – Curitiba / PR. Publicações RBC.
MANUAL PRÁTICO DE NÁRNIA. Colin Duriez; Tradução Celso Roberto Paschoa. – Osasco, SP. Novo Século Editora, 2005.
A VIDA DE C.S. LEWIS: DO ATEÍSMO ÀS TERRAS DE NÁRNIA. Alister MacGRATH; tradução Almiro Pisetta. – São Paulo: Mundo Cristão. 2013.
APOLOGÉTICA CRISTÃ PARA O SÉCULO 21. Louis Marrkos. Central Gospel. Rio de Janeiro, 2013.






[1] A Alma de O Leão A Feiticeira e o Guarda Roupa. Gene Veith. 2006, p. 58.
[2] Apud. Descubra Nárnia, Christin Ditchfield, p. 53.
[3] Id Veith 2006, p. 60.
[4] Apocalipse 5.5
[5] Id Veith 2006, p. 69.
[6] Colin Duriez. Manual Prático de Nárnia. Novo Século editora. 2005, p. 63.
[7] Numinoso: Termo criado por Rudolf Otto em seu livro O Sagrado
[8] Louis Markos. Apologética cristã para o Século 21. Central Gospel. 2013, pp. 82-83.
[9] Id Veith 2006, p. 68-69.
[10] Alister McGrath. Do Ateísmo às Terras de Nárnia. Mundo Cristão. 2013, p. 307.
[11] Id 2013, p. 308.
[12] Id 2013, p. 308.
[13] Id Veith 2006, p. 72
[14] Apud. Org. Gabriele Greggersen. Vida Nova. 2006, p. 24.
[15] Id Veith 2006, p. 53-54
[16] João 8.34
[17] As Crônicas de Nárnia e a filosofia. O leão a Feiticeira e a visão de mundo. Coordenação William Irwin. Madras. 2006, p. 43.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

René Descartes, pai do racionalismo moderno


              René Descartes, francês, nasceu em 1596 e morreu em 1650. Católico convicto, Descartes se propôs a encontrar um método seguro para o conhecimento na modernidade, O ponto de partida de Descartes, é a dúvida metódica e universal, ele começou a duvidar de todo conhecimento que havia recebido e que muitas vezes não sabia se eram verdades, Ferry (2007) diz: “Ele imagina até mesmo a hipótese de um gênio maligno que se divertiria em enganá-lo em qualquer situação, ou ainda se lembra de como, às vezes, em seus sonhos, acreditou que estava acordado, lendo ou passeando, quando de fato estava inteiramente nu, na cama” Descartes não queria construir a sua casa sobre fundamentos antigos, mas sim, colocar seus próprios fundamentos, o grande problema de se construir em fundamentos alheios, é que, não se sabe se são seguros, o receio de Descartes era o de levantar a sua casa sobre fundamentos velhos, fracos e que ruiriam com muita facilidade, por isso, ele rejeita os velhos fundamentos, os descontrói para edificar o seu.

Havia bastante tempo observara que, no que concerne aos costumes, é às vezes preciso seguir opiniões, que sabemos serem muito duvidosas, como se não admitissem dúvidas, conforme já foi dito acima; porém, por desejar então dedicar-me apenas a pesquisa da verdade. Achei que deveria agir exatamente ao contrário, e rejeitar como totalmente falso tudo aquilo em que pudesse supor a menor dúvida, com o intuito de ver se, depois disso, não restaria algo em meu crédito que fosse completamente incontestável (DESCARTES, RENÉ; Discurso do método. p 11)

Segundo Zilles (2006) Na segunda parte do discurso do método Descartes estabelece quatro princípios para chegar a uma certeza indubitável:

  1. “O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal: isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espirito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida” Trata-se da intuição.
  2. “O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las” Trata-se da análise.
  3. “O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, até o conhecimento dos mais compostos” Trata-se de partir do conhecido para chegar ao desconhecido.
  4. “O de fazer em toda a parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse a certeza de nada omitir” Trata-se da síntese.

Segundo Gaarder (1995) “Descartes explica que não devemos considerar nada verdadeiro, enquanto nós não tivermos reconhecido claramente que se trata de algo verdadeiro, para conseguirmos isto, temos de decompor um problema complicado em tantas partes isoladas quanto possível, e então podemos começar pelos pensamentos mais simples, podemos dizer que cada pensamento deve ser pesado e medido, maio ou menos como Galileu queria medir tudo e transformar em mensurável o que fosse incomensurável, Descartes acreditava que o filósofo, para construir um novo conhecimento, devia partir dos aspectos mais simples para chegar aos mais complicados, por fim, ele devia testar através de cálculos e mais cálculos se nada tinha sido deixado de fora, só assim, acreditava Descartes, se poderia chegar a conclusões filosóficas.” Descartes sabia que não podia confiar nos sentidos, pois eles sempre nos enganam, às vezes sonhamos, e nosso sonho parece ser muito real, Jeppe Vom Berge também acreditava ter sonhado que dormia na cama de um barão, e quando estava na cama do barão achava que sua vida, como pobre camponês, não passava de um sonho, É por isso que Descartes acaba duvidando de tudo, inclusive da existência do seu próprio corpo.

Descartes percebeu que poderia duvidar de tudo, menos, de que ele duvidava, ou seja, de que ele era uma criatura pensante, e que para pensar é preciso existir, não havia como duvidar, se penso, logo existo, Cogito ergo sum, Descartes percebeu que a primeira verdade que ele poderia ter acesso era á da sua existência, mas existência como pensamento, pois ele ainda duvidava da existência do seu corpo e da matéria, o “EU” cartesiano é um puro pensamento, uma alma, através da razão Descartes pode ter acesso á ideias claras, inatas, não porque já se nasce com elas, mas porque são resultado exclusivo da capacidade de pensar, nessa classe estão á ideia da substância infinita de Deus e a ideia de substância finita, mas Descartes ainda continuava no mundo do pensamento, como sair do pensamento e recuperar o mundo, a matéria? Para tal, Descartes lança a famosa prova ontológica da existência de Deus, ele diz: Pense em um ser perfeito, esse ser é Deus, mas para ser perfeito ele precisa existir faltasse a perfeição da existência,   ele não seria perfeito, portanto, para ser perfeito é necessário que ele exista, Descartes dizia que a noção de perfeição não poderia vir dele mesmo, pois a noção de perfeição não pode brotar da imperfeição, sendo assim, a noção de um ser perfeito tinha de vir, naturalmente, de outro ser perfeito, em outras palavras: tinha de vir de Deus. Por ser perfeito, ele não me enganaria, nem me faria ter impressões erradas á respeito da realidade, então é certo que as impressões que recebo do mundo são reais, portanto o mundo existe, Descartes conclui que seu corpo é real.

Através da razão o homem pode descobrir todas as verdades possíveis ao espírito segundo Descartes, mas podemos perceber que com o seu método, Descartes traz uma forte dicotomia á existência, pois ele divide tudo em dois grupos, res cogitans e res extensa, ou seja, o mundo do pensamento ou da alma e o mundo material que é uma extensão. O mundo do pensamento não ocupa lugar no espaço, portanto não está limitado ás leis deterministas da natureza, ou seja, no mundo do pensamento é onde predomina a liberdade, a matéria, que é extensão, está restringida às leis da natureza, ao mundo determinístico. Segundo Aranha e Martins “(...) Outra consequência é o dualismo psicofísico (ou dicotomia corpo-consciência), segundo o qual o homem é um ser duplo, composto de uma substancia pensante e uma substancia extensa, a conciliação das duas substâncias dificulta a reflexão de Descartes e gera antagonismos que serão objetos de debates nos dois séculos subsequentes, isso porque o corpo é uma realidade física e fisiológica e, como tal, possui massa, extensão no espaço e movimento, bem como desenvolve atividades de alimentação, digestão etc., estando, portanto, sujeito às leis deterministas da natureza, por outro lado, os fenômenos mentais não tem extensão no espaço, nem localização, as principais atividades da mente são recordar, raciocinar, conhecer e querer; portanto, não se submete às leis da física, mas é o lugar da liberdade”.

Com Descartes vai surgir a subjetividade, ou seja, o sujeito que através da sua consciência vai decidir o que é a verdade, para os modernos a subjetividade  é onde se encontra o critério mais seguro da verdade, através do método critico o homem moderno pode ter acesso ao conhecimento por si só, ou seja surge a autonomia do sujeito, Descartes proporcionou não só um método que elevava a razão universal, mas também que tornava o homem, portador desta razão,  como soberano autônomo capaz de decidir sozinho sobre o que é verdadeiro ou não. Depois de Descartes o homem moderno rejeita todo tipo de autoridade que tente lhe impor uma verdade exterior, seja a igreja, família, estado, ou qualquer outra instituição, só vai ser aceito como verdade pelo sujeito autônomo aquilo que passar pelo escrutínio da razão, Ferry (2007) diz “Nada nos obriga a respeitar para sempre as tradições, ao contrário, quando elas não são boas, é preciso rejeitá-las e muda-las, ou seja, é preciso fazer uma “tábula rasa do passado” para reconstruir tudo de novo”. Essa reconstrução é baseada no sujeito que toma posse de si mesmo, em transparência total, e que a partir daí, só confia em si mesmo.

REFERÊNCIAS

GAARDER, jostein. o mundo de sofia: São Paulo: Companhia das letras. 1995, (Romance da história da filosofia)
ZILLES, Urbano. Teoria do Conhecimento. 5.ed.- Porto Alegre: Edipucres, 2006.
DESCARTES, René. Discurso do Método.- São Paulo: Escala Educacional, 2006
ARANHA, Maria Lúcia De Arruda; MARTINS, Maira Helena Pires. Filosofando; introdução à Filosofia. Editora Moderna.
FERRY, Luc. Aprender a viver, 2007.

A INFLUÊNCIA DE KANT NO CONSTRUTIVISMO DE PIAGET

Jean Piaget foi um epistemólogo suíço, considerado um dos mais importantes pensadores do século XX. Defendeu uma abordagem interdisciplinar para a investigação epistemológica e fundou a Epistemologia Genética, teoria do conhecimento com base no estudo da gênese psicológica do pensamento humano.
Estudou inicialmente biologia na Universidade de Neuchâtel onde concluiu seu doutorado, e posteriormente se dedicou à área de Psicologia, Epistemologia e Educação. Foi professor de psicologia na Universidade de Genebra de 1929 a 1954, e tornou-se mundialmente reconhecido pela sua revolução epistemológica. Durante sua vida Piaget escreveu mais de cinqüenta livros e diversas centenas de artigos.
Piaget foi um defensor do construtivismo, corrente teórica que explica a construção do conhecimento através da interação entre o sujeito e objeto, quando analisamos a história da epistemologia podemo perceber que havia um empesse entre o racionalismo, que dizia que o conhecimento está no sujeito, e o empirismo que afirmava o oposto, ou seja, que o conhecimento reside no objeto, o primeiro pensador a propor uma solução para esse conflito foi o filósofo Immanuel Kant.
 Kant fez uma síntese entre as duas vertentes, segundo ele tanto o objeto como o sujeito tem grande importancia na construção do conhecimento. Kant começa seu livro, A crítica da razão pura, concordando com os empiristas, pois segundo ele, não se pode duvidar que todos os nossos conhecimentos começam com a experiência, mas nem todo conhecimento vem dela. Kant diz que o modo originário do conhecimento é a intuição, ele divide a intuição em: empírica e pura. Intuição empírica é o conhecimento que provem das sensações, e é também chamada de matéria do conhecimento, a intuição pura é a forma da sensibilidade que ordena aquilo que nos é dado pela sensação.

A solução kantiana quer ser uma síntese entre o racionalismo e o empirismo, Kant nega que o homem possa conhecer algo que transcenda completamente à matéria (alma humana, Deus, etc.) essa é uma solução empirista, Kant nega também que a experiência baste para o homem conhecer a matéria; nega que o homem conheça a matéria tal qual é, afirma, pelo contrário, que aquilo que conhecemos (com valor cientifico) da matéria é o que a razão dá à matéria, ou seja, as formas, isso é uma solução racionalista (LARA; 1986, pág. 62).

              Kant mostra que o tempo e o espaço são formas a priori da sensibilidade, ou seja, são anterior a qualquer experiência, tudo que nós conhecemos são os fenômenos, segundo Kant, não podemos conhecer “a coisa em si”, mas somente aquilo que nos aparece. Gaarder (1995) diz: “Não importa o que possamos ver, sempre perceberemos o que vemos, sobretudo, como fenômenos no tempo e no espaço, Kant chamava o tempo e o espaço de formas da sensibilidade, e ele sublinhava, que essas duas formas já existem em nossa experiência, isso significa que podemos saber, antes de experimentar alguma coisa, que vamos experimentá-la como fenômeno no tempo e no espaço. Somos incapazes por assim dizer de tirar os óculos da razão”.
              Piaget discorda de Kant quando se fala das formas a priori da sensibilidade, para ele, Piaget, não existe estruturas cognitivas a priori, mas sim esquemas que são desenvolvidos na criança em sua relação com os objetos a partir do nascimento, e não somente quando se inicia a fala, como se pensava nos tempos dele. Piaget fala que não se pode pensar em qualquer disposição a priori (no sentido kantiano) do sujeito e, portanto, em um sujeito a priori, somente porque o sujeito não está consciente de si mesmo nem de objetos já constituídos, o sujeito começa a tomar consciência de si através da interação com o meio, ou seja, quando ele começa a perceber que ele é diferente dos objetos que estão á sua volta e que ela é um ser consciente de sua existência, mas embora haja divergência e muitos aspectos Piaget e Kant ainda continuam tendo muita coisa em comum.

(...) A denúncia de tal ilegitimidade não visa, por momento algum, enfraquecer ou minar as bases do pensamento de J. Piaget, muito menos opô-lo radicalmente ao de I. Kant. O que se pretende, a partir do que foi dito, é positivar o pensamento de ambos no que possuem de mais fundamental. E, por fim, houve uma surpresa de extrema importância na percepção do fato de que, na positivação que aqui foi feita em relação ao pensamento dos dois autores, emergiu o processo fundamental, comum a ambos, em relação à dinâmica sujeito-objeto relativa ao conhecimento, impedindo a anulação de um pensamento por outro, bem como instaurando uma diferença de perspectiva compreensível unicamente em função da semelhança expressa pelo referido processo constitutivo do conhecimento: a atividade originária.[i]

            Segundo Piaget, estruturas da inteligência não nascem pré-formadas no indivíduo, nem são adquiridas fora dele, mas são construídas ao longo do desenvolvimento, pela atividade própria do sujeito que efetua trocas significativas sobre o mundo real. Em uma perspectiva piagetiana, as crianças não adquirem conhecimentos ou valores morais absorvendo-os de fora, como uma esponja, mas vão construindo-os de forma lenta e gradual numa constante interação com o meio.
             Para Piaget não existe uma pré-disposição inata, mas sim, aquilo que ele chama de esquemas. Esquemas são as estruturas mentais ou cognitivas pelas quais os indivíduos intelectualmente se adaptam e organizam o meio. Não são objetos reais, mas são vistos como conjuntos de processos dentro do sistema nervoso. Podemos fazer uma analogia a um arquivo, no qual cada ficha representa um esquema. Os adultos têm muitas fichas ou esquemas e esses são usados para processar e identificar a entrada de estímulos. Os esquemas do adulto emergem dos esquemas da criança através da adaptação e da organização. Portanto, o desenvolvimento intelectual consiste em um contínuo processo de construção e reconstrução. Os processos responsáveis pela mudança são assimilação e acomodação.
“(...) As crianças não herdam capacidades mentais prontas mas apenas um modo de reagir ao ambiente, a primeira indicação de capacidade de organizar aparecia no desenvolvimento de ações habituais, muito pouco tempo depois do nascimento, cada criança tendia a procurar com a boca algo em que pudesse estabelecer contato com os lábios e agarrar qualquer objeto que lhe tocasse a palma da mão, essas sequências bem definidas Piaget chama de esquemas”. (BEARD; Ruth, M. 4° edição, IBRASA – Instituição Brasileira de Difusão Cultural S.A; P 39-40)

              O conhecimento é estruturado a partir dos esquemas, tão logo se desenvolve um esquema de ação aplica-se a todo objeto novo e a toda situação nova; por exemplo, a criança de peito chupa uma crescente variedade de objetos, à medida que aumenta seu raio de ação, o termo de Piaget para o processo de incorporação de objetos ou experiências novas aos existentes é assimilação, que segundo ZORZI, Jaime Luiz (Pg 21) “(...) a assimilação consiste na integração dos dados externos a um esquema anterior do sujeito, no sentido de incorporar esses dados à atividade do sujeito” a assimilação estende o alcance de um esquema através da incorporação de novos objetos e experiências,  quando um esquema não funciona para determinadas situações a criança maior irá combinar esquemas ou modifica-los para resolver o problema, a isso, Piaget chama de acomodação, que através da tentativa e erro a criança desenvolverá novos esquemas.
              A construção do conhecimento é o resultado do equilíbrio da assimilação e a acomodação, assim há uma relação dialética na construção do conhecimento, pois através do conflito entre assimilação e acomodação surge a equilibração, que resultará em esquemas mais avançados.
Ao desenvolvermos o plano de aula tomamos como base o construtivismo de Piaget, pois, segundo ele o conhecimento é construído na interação entre sujeito e objeto. Procuramos montar atividades que envolvia as crianças e fazia com que elas interagissem e participassem de maneira direta na confecção e manuseamento das atividades, esse envolvimento faz com que a crie, descubra e aprenda de maneira prazerosa.




Acessado às 14:00 do dia 07/11/2014

 BEARD, Ruth M. Como A criança Pensa, 4.ed. São Paulo; Cultural, (A psicologia de Piaget e suas Aplicações Educacionais)

LARA, Tiago Adão. A Filosofia Ocidental Do Renascimento aos nossos dias, 4.ed. Rio de Janeiro, 1986, Vozes. (caminhos da razão no ocidente).